C a p í t u l o - I

Nee, Riku. Você se lembra?
Na primeira vez que nós nos encontramos, eu senti que você seria a pior pessoa que já havia entrado em minha vida;
Mas agora vejo que foi exatamente ao contrário...
Não consigo levantar a hipótese que isso não tenha sido coisa do destino.
“Segunda Vida”

{Sora’s POV}
Já era dia seguinte. Acho que aquela noite havia sido a primeira em anos na qual eu não havia sonhado com o passado. Levantei-me, sentando na cama - um pouco contrariado por ter que fazê-lo. Bocejei antes de analisar meu próprio quarto e desviar minha atenção para a cadeira ao lado de minha cama, onde repousava a calça que havia usado no dia anterior.

Me inclinei um pouco e a puxei para as cobertas, botando uma das mãos dentro de seus bolsos, logo achando o que desejava. O li mais uma vez, antes de suspirar pesadamente.

“Second Life – Escola Livre”


Refleti sobre os acontecimentos de ontem, ao mesmo tempo que virava o corpo, colocando os pés no chão. Em poucos instantes já estava de pé, ainda a encarar aquele pequenino pedaço de papel.

Quando finalmente me dei por vencido para minha consciência, fui ao armário escolhendo a roupa que iria usar hoje. Para ser sincero, “escolher” não é a palavra apropriada. A primeira ao meu alcance de visão já estava de bom tamanho.

Agarrei uma calça preta, um pouco larga. E a combinei com uma blusa verde lisa, junto com um All Star da mesma cor.

Desci rapidamente as escadas, não percebendo se meus pais ou minha irmã estavam em casa. Após atravessar o portão de entrada, chequei o endereço.
Ainda não acreditava que ia fazer aquilo.

Comecei à andar apressadamente, esbarrando em algumas pessoas e não me importando com as ofensas que vinham em seguida. Não demorou muito até chegar ao tal destino.

Era um prédio até que bem cuidado, entretanto estava mais do que óbvio na estrutura deste o quanto era antigo. O portão estava aberto, com alguns alunos saindo e entrando livremente. Com uma coloração levemente beje e detalhes em preto, qualquer um poderia dizer que aquele local de certo modo demonstrava reconforto.

Tomei coragem, suspirando mais uma vez.

Dei o primeiro passo em direção à... Digamos, meu “novo” destino. Não hesitei até conseguir adentrar no recinto, subindo as escadas deste em seguida, não deixando de analisar aquela escola nem por um instante.

De fato, haviam pouquíssimos alunos se compararmos com uma escola tradicional, e bastante se pensarmos que todas aquelas pessoas sofreram algum tipo de abuso institucional ou mesmo do próprio lar.

Ouvi um grito um tanto quanto surpreso e quando me virei para checar de onde vinha, me deparei com Axel.
Arregalei um poucos os olhos, me sentindo constrangido e desviando o olhar enquanto o ruivo andava alegremente em minha direção com os braços abertos.

“Ora, e não é que você veio?” – Perguntou-me num tom misto de felicidade e surpresa.

Tentei forçar um sorriso, escondendo ao máximo o rubor que insistia em permanecer em minhas bochechas.
Assenti de leve com a cabeça, não o olhando diretamente.

Ele pôs uma das mãos em meu ombro, envolvendo-me e começando a caminhar. Acompanhei-o, perguntando-me mentalmente se fiz o certo vindo até aqui.

Axel começou seu discurso sobre a escola e toda sua estrutura: Os alunos aqui poderiam ter a aula que quisesse a hora que quisesse; Afinal, ninguém pode obrigar ninguém à tentar reconstruir a própria vida, teria que partir de dentro de si – Não de terceiros.
Me contou também onde ficavam as salas de aulas e também onde poderia localizar os banheiros e quem sabe a cozinha.

Foi então que me deparei com algumas portas fechadas, com pequenos sinais de luz saindo por debaixo desta, indicando alguém dentro daquelas das salas. Eram três, no total.

Não contive minha curiosidade, encarando o maior e perguntando-o que utilidade exerciam aquelas portas.

“Ah, aquilo.” – O ruivo comentou baixo, como se para si. Puxou-me levemente, parando em seguida na frente da primeira sala. Só então percebi que todas as portas possuíam um tipo de janela pequena, permitindo tanto os usuários dela quanto aos visitantes de perceberem o que estava havendo no momento. Fiquei na ponta dos pés, analisando a vista. Um garoto, de cabelos loiros espetados ocupava a sala. Ele trajava uma calça longa e larga, enquanto a blusa permanecia um tanto quanto justa em seu corpo. Parecia ter a mesma idade que eu, julgando pelo rosto redondo e a aparência juvenil. O mesmo dançava algo que me parecia Hip-Hop, mas não posso afirmar com certeza. Parecia bastante concentrado no que estava fazendo, apesar da música alta.

“Aquele é o Roxas.” – Disse por fim Axel, quebrando o silêncio. – “Parece que está praticando. Deixarei para apresentá-los em outra oportunidade, tudo bem?”

Acenei afirmativamente mais uma vez, dando uma última espiada no rapaz antes de perceber o olhar tanto quanto sereno que Axel usava enquanto olhava para aquele garoto.

Decidi ignorar o que havia visto, apontando para a porta seguinte.

“E ali? O que é?”

O ruivo acordou de seus devaneios, sorrindo em seguida à mim. Caminhou até a sala onde eu havia indicado, parando em frente a esta e espiando o que havia lá dentro.
Fez um sinal com a cabeça para que eu o acompanhasse e foi exatamente o que fiz.

Mais uma vez me apoiei na ponta de meus pés, visualizando a sala seguinte. Ao contrário da anterior, a segunda estava muito escura com exceção de uma pequena luz proveniente da tela de um computador no final desta. Pude ouvir os tiques rápidos dos dedos em contato com o teclado. Observei por mais alguns instantes a figura que estava no recinto. Os cabelos eram incrivelmente prateados, presos num rabo de cavalo feito de qualquer jeito. Também trajava uma calça rasgada nos joelhos e uma blusa de manga cumprida preta. Não pude ver o rosto, pelo mesmo estar de costas para mim...

“Este é Riku. Ele passa a maior parte do tempo na frente de seu computador...” – Informou-me o maior.

“Hn...” – Foi tudo que eu consegui dizer em contato com todas aquelas pessoas novas. Virei-me de costas para a porta, só agora percebendo que uma menina me encarava.

Ela era baixa, menor do que eu e loira. Usava um vestido rosa, com muitos detalhes de doces e babados acompanhando-o. Uma meia-calça branca repousava em suas pernas, dando-a curvas e um sapato de boneca também rosa descançava em seus pés. Possuía um pequeno laço enfeitando-lhe os cabelos um pouco ondulados nas pontas. Seus olhos eram azuis como o mar e o rosto tinha formato angelical, como de uma criança.
Ela me olhava hesitante, como se quisesse algo mas tinha vergonha o suficiente para pedi-lo.

Axel logo percebeu meus devaneios e tratou de encarar o que eu tanto via com surpresa. Abriu um longo sorriso, indicando com os dedos para a garota se aproximar. A menina deu os primeiros passos receosos, mas alguns instantes depois ela já se encontrava em minha frente, corada e com um sorriso sem graça nos lábios.

“Esta é Naminé.” – Apresentou-me por fim o ruivo.
“É um prazer conhecê-la.” – Retruquei na tentativa de ser amigável.

Ela me respondeu com um sorriso de orelha a orelha, ao mesmo tempo que suas mãos se juntavam entrelaçando os dedos e levando-a até um pouco abaixo do queixo, num ato de felicidade.

“É um prazer conhecê-lo também! Como se chama?” – Perguntou-me numa voz suave.

Percebi a atenção de Axel se desviando em minha direção, tendo em vista que ele também não sabia meu nome.

“É... Sora.” – Respondi um pouco baixo.
“Sora! É um belo nome!” – Ela me disse, num tom mais alegre desta vez.

O ruivo também sorriu, virando as costas e dizendo em seguida:
“Preciso ir, crianças. Tenho que dar uma aula agora... Não aprontem muito, ok?”

Em seguida começou a caminhar calmamente pelos corredores, deixando-me sozinho com Naminé.
Um silêncio constrangedor permaneceu tomando conta do ambiente por alguns segundos, até o barulho de uma porta abrindo aparecer.

Encarei a fonte do barulho, descobrindo que o garoto de nome “Roxas” sair de sua sala, nos olhando também e sorrindo para a loira, que o retribuiu do mesmo modo.

“Roxas-chan!”

Ele não a respondeu com palavras porém pôs-se a caminhar em nossa direção abraçando-a e em seguida olhando para mim um tanto quanto curioso.

Tinha alguma coisa na minha cara?

Voltar para a página de fics.